domingo, 1 de março de 2015

As luzes das Medianeras.


Quem nunca teve o coração partido ao menos uma vez na vida que atire a primeira pedra. Todos nós vivemos em função do amor, dele sobrevivemos ao caos do mundo moderno, as inseguranças e aos temores da vida. Amor é combustível, respira-se amor, vive-se de amor.
Os solteiros convictos e independentes que me desculpem, mas em toda solidão, há sempre uma busca intensante de encontrar sua tampinha da panela, a metade da laranja, e não adianta negar, o amor é um dos sentimentos mais importante da vida humana. Mas voltando ao coração partido. Sofremos desilusões, agimos pateticamente, choramos ou fazemos sofrer, por algum  momento desacreditamos, mas amar novamente é possível sim; o filme Medianeras prova isso.

Em Medianeras - Buenos Aires da Era do Amor Virtual o impossível é possível, dirigido por Gustavo Taretto, trata-se de um retrato muito bem feito dos relacionamentos atuais na era virtual, estabelecendo forte ligação com a arquitetura de Buenos Aires e seus grandes edifícios,  tornando-se metáfora perfeita da vida e do crescimento desenfreado das grandes cidades.  

"Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita. É uma cidade superpovoada num país deserto. Uma cidade onde se erguem milhares e milhares de prédios sem nenhum critério. Ao lado de um muito alto tem um muito baixo. Ao lado de um racionalista, tem um irracional. Ao lado de um em estilo francês, tem um sem estilo. Provavelmente essas irregularidades nos reflitam perfeitamente. Irregularidades estéticas e éticas. Esses edifícios que se sucedem sem nenhuma lógica demonstram falta total de planejamento. Exatamente assim é a nossa vida que construímos sem saber como queremos que fique. Vivemos como quem está de passagem por Buenos Aires. Somos os criadores da cultura do inquilino. (...) Os prédios, como todas as coisas pensadas pelo homem, servem para diferenciar uns dos outros. (...) O que se pode esperar de uma cidade que dá as costas ao seu rio? Estou convencido de que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a apatia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, a tensão muscular, a insegurança, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo são culpa dos arquitetos e incorporadores. Esses males, exceto o suicídio, todos me acometem."

O roteiro gira em torno dos personagens Mariana ( Pilar López de Ayala) e Martin (Javier Drolas). Ela, arquiteta formada e desenganada, não exerce sua profissão, acaba por trabalhar como Vitrinista, decorando seus manequins, buscando aflita o olhar atento dos que caminham apressadamente. Claustrofóbica, solitária, insegura, triste, fumante compulsiva, desiludida com um relacionamento de quatro anos mal sucedidos, vive em seu apartamento duplex, que se torna duplex graças aos três degraus, que o dividem do segundo piso. Martin, Web Designer fóbico, vive no cárcere de seu apartamento, conectado o tempo todo a internet "A internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida."  No silêncio de seu refúgio, trabalha, alimenta-se, dorme e acorda, vivendo em vasta monotonia. A historia de Martin não se difere de Mariana, sua ex namorada o deixa, partindo para os Estados Unidos com a  promessa de volta, contudo acaba o abandonando, deixando apenas a cachorrinha aos seus cuidados. 

Os personagens se enclausuram em seus vazios, moram na mesma cidade, no mesmo bairro, mesma rua, em prédios vizinhos. Semelhantes são seus gostos, choram na mesma cena de  Manhanthan de Woody Allen, compartilham do mesmo gosto musical, adoram natação e frequentam a mesma academia, são feitos um para o outro, no entanto ainda não se conheceram. Ambos passam por tentativas frustradas de encontros, com pessoas superficiais, buscando sempre uma esperança perdida, Martin em salas de bate papo, Mariana com alguns rapazes, fugindo de alguns, tentando com outros, num desses encontros o Martin afirma; "Concluí que esses encontros são como combos do McDonald´s. Nas fotos tudo é melhor, maior e mais apetitoso. Cada vez que vou a um encontro sofro a mesma decepção que frente a um Big Mac."

 Os desencontros entre os protagonistas são constantes, se esbarram na rua, nadam na mesma piscina, atravessam na mesma faixa de pedestre, trocam algumas palavras pela sala de bate papo, mas são interrompidos pelo um apagão de energia. Os dois constroem janelas em  Medianeras, parede lateral usada para anúncios publicitários, Martin observa atentamente a vitrine decorada por Mariana. Porém as circunstâncias não os ajudam.Todos esses acasos criam grande expectativa aos que assistem ao filme e a torcida para o encontro dos jovens solitários, cresce a cada cena.

Medianeras, é uma representação bem humorada da sociedade contemporânea, traz grandes reflexões existenciais e comportamentais. Um filme bonito, feito por ótimos atores e de fotografia brilhante.
É dramático, humorado, romântico e otimista, não há como classificar a dimensão de sensações que esse filme nos proporciona. As Medianeras são a luz no fim do túnel, que adentra para o novo, aos desacreditados de recomeços. Mesmo com os tantos meios de comunicação, que nos distanciam ao invés de nos aproximar, encontrar a felicidade não é algo inalcançável, esta é uma das lições transmitidas pelo filme.