segunda-feira, 6 de junho de 2016

Diário de uma madrugada perdida


Começarei esse texto citando o grande poeta contemporâneo, Sergio Vaz, um pequeno trecho de um de seus poemas mais bonitos, que diz assim "(...) Não sei se posso ser seu amigo depois ter sido seu amante, mas depois de ter sido teu amante, que graça tem ser seu amigo? . 

Adiei escrever este texto, na verdade ele estava rascunhado num dos meus velhos cadernos e o deixei lá por alguns anos, talvez por falta de coragem, mas precisava escrevê-lo, não sei se por angustia ou por libertação.

Certo dia dormi em sua casa, por um acaso cai nessa cilada, numas das madrugadas regadas a cerveja e a boemia, perdi o horário do ônibus, a carona que sobrou foi a ajuda de sua irmã, que me ofereceu a pernoite em sua casa, aceitei agradecida. Quando cheguei em seu prédio, faltava-me forças para subir as escadas que dava para o segundo andar, onde ficava seu apartamento, não sei se era por causa da bebida em demasia, ou porque eu estava fraca só de estar ali.

Uma tristeza invadiu-me e fiquei a observar aquelas escadas, os escuros cantos daquele prédio, onde várias vezes nos beijávamos apaixonados sem nos preocupar com os vizinhos que ali se encontravam. Por um segundo relembrei dos nossos primeiros anos de namoro, nossas conversas apaixonadas, escutei sua voz me chamando, lembrei de quando eu ia embora e olhava para trás você estava a me olhar, com seu sorriso de menino, todas essas lembranças ali juntas, renasceram, tropecei no último degrau.

Entrei em sua casa nas pontas dos pés, sua mãe dormia tranquila, esperei sua irmã decidir onde eu dormiria, foi então que ela sugeriu que dormíssemos em seu quarto, afinal você não estava e nem chegaria, não correríamos risco de encontra-lo , lá fomos. Quando entrei em seu quarto parecia que nada havia mudado, as roupas continuavam amontadas, seus tênis debaixo da cama, sua mania de guardar coisas antigas permaneciam, a velha beliche estava lá, na mesma posição, como dá última vez em que nós nos despedimos. Sua irmã deitou na cama de baixo e peguei seu colchão, com o mesmo cobertor azul e seu travesseiro.

Sua irmã perguntou se eu queria alguma coisa , então a luz se apagou , ela falava eu não a escutava, o tempo parou naquele momento, até que o silencio veio, sua irmã logo adormeceu, fiquei a olhar para o teto, pensei e cheguei a seguinte conclusão que aquele dia, ou melhor aquela madrugada seria uma das mais tristes da minha vida.

Não consigo descrever o que senti, era tristeza, era mágoa, incerteza, saudade;  tudo ao mesmo tempo , no mesmo lugar, naquele lugar; o cheiro de seu travesseiro não era o mesmo;  era o seu perfume misturado com o de outra pessoa; não era o meu, deitada naquele colchão lembrei de todas as noites em que passamos ali, só conversando, quando ficávamos debaixo daquele mesmo coberto azul, fazendo planos para o futuro, dos filhos que teríamos, os lugares onde iriamos, éramos jovens inconsequentes e sonhadores, debaixo daquele cobertor nossos planos eram infinitos, promessas, suspiros. Hoje seus planos são com outra pessoa.  

A vida foi ingrata com nossa história e não tem sido boa comigo, mas sempre acreditei em finais felizes, você sempre soube que sempre fui sonhadora, e finalizo citando outro autor, Paulo Mendes Campos, cronista singular: “O amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Texto escrito em 2014. 


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